segunda-feira, 29 de setembro de 2008

camila











Contraditório classificar estas imagens em paisagem ou espaço – em especial este último. E também pelo entendimento dos termos embolarem-se com o que nos diz o senso comum sobre – por ele, muitas vezes são correspondentes.

Penso que “paisagem” e “espaço” dizem respeito a esferas próprias – porém em interseção -, seus tempos são diferentes sem deixarem de ser contemporâneas.

A primeira é sedimento de várias épocas, explícitos ou não; “fossilização” daquilo que foram espaços. Em paisagem significados são subentendidos – emergidos talvez por uma leitura cuidadosa.

O movimento do ser humano acontecido na paisagem é espaço; sistema de valores, de fluxos e fixos, e funcionalidade.


.


"Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização – uma modificação anônima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas – ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.

Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela."
Fernando Pessoa



Nenhum comentário: